Neste 17 de agosto, Dia Nacional do Patrimônio Histórico, o Santuário celebra a trajetória de Rodrigo Melo Franco de Andrade, o homem que estruturou a preservação da história brasileira — e tombou, em 1943, o conjunto que guarda a memória do Apóstolo do Brasil.
Em 1937, o Brasil ainda não tinha um sistema organizado de proteção ao seu patrimônio. Igrejas centenárias, obras de arte e monumentos que contavam a história do país dependiam da boa vontade local para sobreviver. Foi nesse cenário que um advogado, jornalista, escritor e historiador nascido em Belo Horizonte recebeu uma missão que mudaria o rumo da memória nacional.
Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898–1969) tinha 39 anos quando organizou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) — a instituição que, mais tarde, se tornaria o atual IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Entre 1937 e 1967, foram 30 anos à frente do órgão, dedicados a estruturar, do zero, as políticas de preservação que garantem até hoje que monumentos, obras de arte e tradições sejam reconhecidos como bens de todos os brasileiros.
Foi esse trabalho que criou as condições para que o país passasse a olhar para o próprio passado com responsabilidade — e que alcançou diretamente o Espírito Santo.
O elo com o Santuário
A cerca de 500 quilômetros do Rio de Janeiro, onde Rodrigo trabalhava, o litoral capixaba guardava um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus no Brasil: o conjunto formado pela Igreja de Nossa Senhora da Assunção e a antiga residência jesuíta, erguido a partir de 1579 na então aldeia de Reritiba.
Em 1943, seis anos após a criação do SPHAN, esse conjunto — hoje o Santuário Nacional de São José de Anchieta — foi tombado pelo IPHAN, com inscrição no Livro do Tombo Histórico. Foram 83 anos de proteção oficial, garantidos pelo mesmo sistema que Rodrigo ajudou a construir. O santuário preserva não apenas a arquitetura do século XVI, mas a memória do Apóstolo do Brasil, São José de Anchieta, canonizado pelo Papa Francisco em 2014, e de uma espiritualidade que atravessa mais de quatro séculos.
Sem a estrutura criada por aquele mineiro, a proteção jurídica e institucional de centenas de bens brasileiros — incluindo este — teria seguido outro caminho.
Preservar é mais do que manter de pé
A data de 17 de agosto, instituída em 1998 no centenário do nascimento de Rodrigo Melo Franco de Andrade, é um lembrete de que patrimônio não é fachada bonita. É memória viva em quatro dimensões:
- Religiosa — a espiritualidade inaciana, a devoção a São José de Anchieta e a tradição jesuíta que seguem animando a vida de fé do santuário;
- Cultural — a arte sacra, a arquitetura e as tradições que atravessaram os séculos e continuam contando a história do Brasil;
- Ambiental — o entorno natural que envolve o conjunto histórico, preservado em sintonia com a ecologia integral;
- Educacional — o conhecimento transmitido a cada visita escolar, a cada peregrinação, a cada estudo sobre este lugar.
Cada pessoa que cruza as portas do Santuário participa dessa corrente. Visitar, conhecer, estudar e cuidar — é assim que a memória deixa de ser registro do passado e se torna compromisso com o futuro.
A melhor homenagem a Rodrigo Melo Franco de Andrade não é apenas lembrar seu nome. É reconhecer o valor do que ele ajudou a proteger — e continuar cuidando.