O teatro é uma das mais antigas linguagens da humanidade. Nascido na Grécia Antiga, por volta do século IV a.C., ele nasceu mesclando ludicidade e adoração aos deuses, até se transformar, com o tempo, em espetáculo público. Na Idade Média (séculos V–XV), a Igreja Católica e as temáticas religiosas ganharam força nos palcos, pregando os dogmas cristãos e a obediência — o chamado Teocentrismo. Na transição para a Era Moderna (XVI–XVIII), o Renascimento resgatou os clássicos greco-romanos e colocou o homem no centro das atenções: o Antropocentrismo.
É nesse ponto da história que nasce e vive José de Anchieta (1534–1597). Homem do seu tempo, recebeu as influências de um berço cristão em Tenerife, nas Ilhas Canárias, e a sólida formação do Real Colégio das Artes e Humanidades, da Universidade de Coimbra — onde, ainda aos 14 anos, foi lapidado nas ciências humanas, na retórica e na filosofia clássica, elementos que forjaram sua expressão literária e refinaram sua escrita.
O fervor missionário e evangelizador, somado às suas altas capacidades intelectuais, fez das peças teatrais de Anchieta — de finalidade catequética, pedagógica e artística — um dos meios mais eficazes de transmitir o Evangelho e a doutrina cristã. Por isso, podemos afirmar com segurança: São José de Anchieta é o fundador do teatro brasileiro.
Segundo as pesquisas, nosso Santo escreveu 12 autos, dos quais oito são os mais conhecidos e difundidos, pela sobrevivência de textos mais robustos. Entre eles estão a “Pregação Universal” (1567–1570), considerada a primeira peça encenada em solo nacional; o “Auto da Festa de Natal” (1561); o “Auto da Festa de São Lourenço” (1583); o “Auto de São Sebastião” (1584); “Na Aldeia de Guaraparim” (1585); o “Auto de Santa Úrsula” (1595); o “Auto de São Maurício”, também citado como “Auto da Vila de Vitória”; e o “Auto da Assunção” (1579), escrito em Reritiba — “terra de muitas ostras”, nossa querida e amada cidade de Anchieta.
E há um detalhe que torna essa história ainda mais viva para nós: foi no adro da igreja da antiga aldeia de Reritiba, no coração do que hoje é o Santuário Nacional de São José de Anchieta, que o “Auto da Assunção” foi encenado, na festa de dedicação do templo. Ali, diante dos indígenas da aldeia, o palco se fez ao ar livre, sob o céu da “terra de muitas ostras” — o mesmo espaço que, séculos depois, segue recebendo fé, arte e memória. O adro que hoje acolhe os devotos foi, um dia, o primeiro grande palco desta cidade.
Uma homenagem ao Teatro Rerigtiba
Essa herança não ficou no passado. Em Anchieta, a tradição teatral segue viva e pulsante no Espaço Cultural Rerigtiba, sede do Grupo de Teatro Rerigtiba. Desde 2011, o espaço é um verdadeiro oásis cultural na região: um lugar multifuncional de criação, experimentação e produção artística, com sala de ensaio, palco para até 80 pessoas, espaço para intercâmbio e residências artísticas, além de abrigar um CineClube e a Escola Aberta de Teatro.
É ali que artistas, diretores, técnicos e estudantes dão continuidade ao mesmo gesto que Anchieta iniciou há quase cinco séculos: usar o palco para educar, emocionar e construir comunidade. A cada montagem, a cada mostra — como a tradicional Mostra de Teatro Cidade de Anchieta — a cidade reafirma que o teatro é parte do seu DNA, do seu patrimônio e da sua identidade.
Homenagear o Teatro Rerigtiba é, no fundo, homenagear a própria memória de Anchieta: a certeza de que a arte, quando feita com verdade e excelência, atravessa os séculos e continua a formar gente.