Da bula Regimini Militantis Ecclesiae à missão de Reritiba, a trajetória de José de Anchieta e do patrimônio que o Espírito Santo preserva até hoje.
Quando o papa Paulo III assinou, em 27 de setembro de 1540, a bula Regimini Militantis Ecclesiae, ele reconhecia oficialmente a Companhia de Jesus, ordem fundada sete anos antes por Inácio de Loyola e seis companheiros em Paris. Ninguém naquela Roma do século XVI poderia prever que aquela decisão mudaria a geografia cultural de um continente inteiro, e que um de seus filhos, nascido nas Ilhas Canárias, deixaria sua marca definitiva em uma pequena aldeia às margens do rio Benevente, no litoral sul do Espírito Santo.
Hoje, ao completar 486 anos, a Companhia de Jesus olha para uma das provas mais concretas de sua travessia: o Santuário Nacional de São José de Anchieta, em Anchieta (ES), antiga Reritiba, um dos sítios jesuíticos mais antigos e íntegros do Brasil.
Do reconhecimento papal à costa brasileira
A distância entre a fundação da Ordem e sua chegada ao Brasil foi curta para os padrões do século XVI. A Companhia foi aprovada em 1540; em 1549, os primeiros jesuítas desembarcavam na Bahia junto com o governador-geral Tomé de Sousa, para iniciar um trabalho de catequese, educação e organização missionária que se espalharia por toda a colônia. Em 1553, um jovem noviço espanhol de 19 anos, José de Anchieta, chegava ao Brasil com outros seis religiosos, trazido pela saúde frágil que o acompanharia a vida inteira e pela determinação que o tornaria conhecido como o Apóstolo do Brasil.
Anchieta participou diretamente das fundações de São Paulo e do Rio de Janeiro antes de fixar sua atenção na Capitania do Espírito Santo, onde a presença jesuítica se organizava em torno de colégios e missões ao longo da costa capixaba. Foi ali que ele encontrou seu lugar definitivo.
Reritiba: a missão que virou cidade
Entre as aldeias indígenas do litoral capixaba, Anchieta escolheu Reritiba para viver seus últimos anos, imerso na cultura e na língua dos povos nativos. A escolha não foi casual: a região era ponto de confluência e a proximidade com os indígenas permitia o trabalho missionário que ele conduzia com a fluência no tupi aprendida em poucos anos de Brasil.
Em 1579, a pedido do próprio padre, os indígenas iniciaram a construção da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, erguida com pedras, recifes e argamassa de areia, cal e óleo de baleia. A estrutura, concluída por volta de 1589, segue o modelo tipológico das igrejas jesuíticas da época, o mesmo espírito arquitetônico da Igreja do Gesù, em Roma, adaptado à escassez de recursos da colônia e à técnica local de taipa de pilão e pedra basáltica.
Foi nesse complexo que Anchieta morreu, em 9 de junho de 1597. Os indígenas carregaram seu corpo por cerca de 100 quilômetros, a pé, até o Colégio de São Tiago, em Vitória, edifício que hoje abriga o Palácio Anchieta, sede do Governo do Espírito Santo. Durante o funeral, ele foi reconhecido publicamente como Apóstolo do Brasil. Seus restos mortais repousam sob o altar-mor da igreja que ele ajudou a erguer.
Os caminhos da história: expulsão, restauração e patrimônio
A trajetória dos jesuítas no Espírito Santo não foi linear. Em 1759, o Marquês de Pombal expulsou a Companhia de Jesus dos domínios portugueses, e o confisco atingiu diretamente Reritiba: o colégio e a igreja passaram a outros usos, com períodos de abandono e degradação. O processo de canonização de Anchieta, interrompido pela expulsão, foi retomado após a restauração da Ordem, em 1814, e a independência do Brasil, em 1822.
Os marcos do reconhecimento se sucederam nos séculos seguintes: em 1887, o papa Pio IX declarou Anchieta Venerável; em 1943, o complexo jesuítico foi tombado pelo IPHAN, em um dos processos mais antigos do patrimônio brasileiro; em 1965, foi criado o Museu Nacional São José de Anchieta para preservar os materiais arqueológicos, imagens e objetos litúrgicos da antiga missão; em 2000, a igreja recebeu o título civil de Santuário Nacional, por decreto presidencial. Restaurações conduzidas em parceria com o IPHAN, entre 1994 e 1997 e entre 2017 e 2019, consolidaram o edifício tetracentenário que hoje recebe milhares de visitantes.
A canonização e o papa jesuíta
O desfecho do processo de santidade de Anchieta tem um simbolismo que atravessa continentes. Em 3 de abril de 2014, o papa Francisco, primeiro jesuíta a ocupar o trono de Pedro, canonizou José de Anchieta no Vaticano, em cerimônia que reuniu delegações do Brasil, da Espanha e de países da América Latina. A bula de canonização, assinada por um papa da Companhia de Jesus para o mais célebre jesuíta do Brasil, está guardada no acervo do próprio Santuário Nacional de Anchieta, único lugar no país onde esse documento pode ser visto de perto.
Memória viva e educação
Para além do valor religioso, o complexo de Anchieta é patrimônio público de primeira grandeza. O Centro de Interpretação, instalado nas dependências do antigo colégio jesuíta, oferece percurso multimídia que aproxima o visitante dos textos e da história do século XVI: a construção da igreja, a organização da missão de Reritiba e a figura de Anchieta entre a ciência e a fé. O acervo do museu é frequentado por turistas e estudantes de várias regiões do Brasil e do mundo, cumprindo a função educativa que os jesuítas iniciaram há quase cinco séculos.
A história da Companhia de Jesus no Espírito Santo não está apenas nos livros. Está nas paredes de pedra e óleo de baleia, na figueira centenária do pátio, no corpo de Anchieta sob o altar, no Palácio que carrega seu nome na capital e na cidade que nasceu em volta da missão. é a história de uma travessia que começou em Roma, em 27 de setembro de 1540, e permanece de pé, à beira do Benevente, aberta a quem quiser conhecê-la.
Fontes consultadas: documentos públicos da Secretaria de Turismo do Espírito Santo (Setur/ES), Instituto Reritiba, Portal Jesuítas Brasil, The Society of Jesus (jesuits.global), IPHAN e Ensina RTP.