O que São José de Anchieta tem a ver com a Igreja das Neves

Dois santuários, uma mesma herança: Anchieta no litoral sul capixaba

Dois santuários, uma mesma herança: Anchieta no litoral sul capixaba

Entre a Cidade Alta de Vitória e as planícies do Rio Itabapoana, há um território que São José de Anchieta percorreu, evangelizou e marcou com sua obra. Dois santuários guardam essa memória: o Santuário Nacional de São José de Anchieta, em Reritiba — hoje município de Anchieta —, e o Santuário de Nossa Senhora das Neves, em Muribeca, Presidente Kennedy. A poucas dezenas de quilômetros um do outro, são capítulos de uma mesma história: a da Companhia de Jesus e de seu missionário mais célebre no Brasil.

A presença de Anchieta no Espírito Santo é fato comprovado. Chegou ao Brasil em 1553, ainda jovem jesuíta, e dedicou a vida à missão. Foi um dos fundadores do Colégio de São Tiago, em Vitória (1551), hoje o Palácio Anchieta, sede do governo estadual. Viveu os últimos anos em Reritiba, onde morreu em 9 de junho de 1597. Foi ali, entre as missões do litoral sul, que consolidou um modelo de evangelização que unia fé, trabalho e convivência com as populações originárias.

A ligação entre Anchieta e Muribeca não é invenção recente. Está documentada na história da própria Companhia de Jesus. A Fazenda Muribeca foi um dos maiores assentamentos jesuíticos da Capitania do Espírito Santo, dedicada sobretudo à criação de gado. Sua existência é atestada por fontes primárias: André João Antonil, jesuíta, menciona a fazenda em Cultura e Opulência do Brasil (1711); o Arquivo da Companhia de Jesus em Roma registra uma residência jesuítica no local em 1707; e estudos historiográficos confirmam Muribeca como uma das grandes propriedades da capitania, ao lado de Araçatiba, voltada à cana-de-açúcar. Por cerca de 150 anos, a fazenda sustentou as missões da região. Foi legalizada em 1702 pelo padre André de Almeida.

É aqui que a precisão importa. Segundo a tradição local, registrada na crônica de Nery e reproduzida por Basílio Daemon no século XIX, a primeira Igreja de Nossa Senhora das Neves teria sido erguida em madeira por Anchieta em 1581, às margens do Rio Itabapoana, em território habitado por indígenas puris e botocudos. A estrutura original teria sido destruída por um incêndio, dando lugar a um templo de alvenaria.

Essa data de 1581 e a autoria da fundação repousam em uma única fonte tardia, cerca de três séculos posterior ao fato. Não há, até hoje, documento primário do século XVI que comprove diretamente que Anchieta ergueu a igreja naquele ano. O estudo acadêmico mais sério sobre o tema, “A lendária fazenda Muribeca”, de Carlos Roberto Pires Campos (2022), trata a questão com cautela, apoiando-se em arqueologia histórica e em documentos do arquivo jesuítico.

Isso não diminui o valor da tradição — revela sua natureza. É uma memória viva, transmitida e consolidada ao longo de séculos, que o patrimônio imaterial preserva. A Igreja de Nossa Senhora das Neves é patrimônio tombado pelo Governo do Estado do Espírito Santo (2008) e pelo Município de Presidente Kennedy (1995), e sua festa foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado em 2024.

O que une os dois santuários, mais do que uma data precisa, é o espírito que os originou. Ambos nasceram da mesma presença jesuíta que Anchieta representou e que a Companhia de Jesus consolidou no Espírito Santo. Ambos testemunham um modelo de evangelização encarnado — que não se limitava ao altar, mas construía residências, oficinas, pomares, casas de farinha e engenhos, integrando fé e trabalho, fé e cultura, fé e vida comunitária.

Essa é a herança inaciana que os dois santuários guardam: a convicção de que a fé se encarna no mundo, no trabalho e na memória de um povo. É o que o peregrino encontra ao visitar Reritiba e Muribeca — não apenas dois templos, mas dois testemunhos de uma mesma missão.

Há, ainda, uma oportunidade que merece ser celebrada: a possibilidade de uma rota anchietana que conecte os dois santuários — Vitória, Anchieta e Muribeca. Cada ponto é uma etapa da vida e da obra do santo, e juntos formam um eixo natural de turismo religioso, cultural e de memória. Para o Santuário Nacional, essa conexão regional é um convite ao diálogo com a vizinhança, sem disputa de protagonismo. A devoção mariana de Muribeca e a devoção anchietana de Reritiba não competem; somam-se na construção de uma identidade capixaba que tem na espiritualidade inaciana uma de suas raízes.

Celebrar essa ligação é, antes de tudo, um ato de memória. E memória, quando bem feita, é um compromisso com a verdade — com o que está documentado e com o que a tradição preserva. Que essa herança continue a ser celebrada com rigor, com beleza e com o espírito inaciano do magis: buscar sempre o mais, em profundidade, em verdade e em serviço ao bem comum.

Fontes primárias

ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Lisboa: Officina Real, 1711. (Livro IV, Cap. I — menção expressa à fazenda de Muribeca.)

DAEMON, Basílio. Província do Espírito Santo: sua descoberta, história cronológica, sinopse e estatística. Vitória, 1879. [Transcrição da seção “Ano de 1754” consultada no portal Morro do Moreno: https://morrodomoreno.com.br/materias/ano-de-1754-por-basilio-daemon.html]

NERY. Lembranças, p. 122. Apud DAEMON, Basílio, op. cit. — registro da tradição: “1ª Igreja de Nossa Senhora das Neves, na fazenda Muribeca, edificada a princípio de madeira por Anchieta em 1581 e substituída em 1748 pela atual que é de pedra.”


Estudos acadêmicos

AMANTINO, M. Os bens materiais e os escravos dos jesuítas na Capitania do Espírito Santo. In: Anais do Simpósio Nacional de História (ANPUH). São Paulo, 2011. [Confirma Muribeca como uma das três grandes propriedades jesuíticas da capitania, destinada à criação de gado.]

CAMPOS, Carlos Roberto Pires. A lendária fazenda Muribeca: um estudo de caso em arqueologia histórica. Dimensões — Revista de História da UFES, Vitória, n. 49, p. 184-206, 2022. ISSN 2179-8869. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/dimensoes/article/view/38485

INSTITUTO RERITIBA. A Capitania do Espírito Santo: um itinerário entre as fontes e a historiografia. Disponível em: https://reritiba.com/a-capitania-do-espirito-santo-um-itinerario-entre-as-fontes-e-a-historiografia/


Fontes institucionais e documentais

DIOCESE DE CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM. Da tradição romana a Presidente Kennedy: a história de Nossa Senhora das Neves. Disponível em: https://diocesecachoeiro.org.br/da-tradicao-romana-a-presidente-kennedy-a-historia-de-nossa-senhora-das-neves/. Acesso em: 5 ago. 2026.

PRESIDENTE KENNEDY (Município). Prefeitura Municipal. História do Município. Disponível em: https://antigo.presidentekennedy.es.gov.br/pagina/ler/1000/historia-do-municipio. Acesso em: 5 ago. 2026.

WIKIPÉDIA. Igreja de Nossa Senhora das Neves (Presidente Kennedy). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_Nossa_Senhora_das_Neves_(Presidente_Kennedy). Acesso em: 5 ago. 2026. [Referência complementar]

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