No dia 25 de julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor. A data foi instituída pela União Brasileira de Escritores (UBE) em comemoração ao Primeiro Festival do Escritor Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro em 25 de julho de 1960. O evento foi idealizado por dois gigantes das letras nacionais: João Peregrino Júnior (1898–1983), então presidente da UBE, e Jorge Amado (1912–2001), vice-presidente e o escritor brasileiro mais traduzido de todos os tempos.
O sucesso do festival levou o então Ministro da Educação e Cultura, Pedro Paulo Penido (1904–1967), a assinar uma portaria instituindo oficialmente o 25 de julho como o Dia Nacional do Escritor. O objetivo: reconhecer aqueles que dedicam a vida a transformar ideias em livros, poemas, roteiros e crônicas, enriquecendo a história e a cultura do país.
Mas a história da literatura brasileira começa muito antes de 1960. Começa no século XVI, com um jesuíta que desembarcou nas terras do Novo Mundo e, sem saber, plantava a semente de toda a nossa tradição literária.
O Fundador
São José de Anchieta (1534–1597) — escritor, poeta, dramaturgo, gramático, orador sacro, historiador e poliglota — é patrono da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, desde sua fundação em 1897. Chamado de “o canário de Coimbra” pela facilidade e leveza com que versejava em latim, Anchieta nos deixou um legado que transcende a evangelização.
No período do Quinhentismo (1500–1601), momento inicial da manifestação literária no Brasil, Anchieta produziu dois gêneros fundamentais:
A literatura de catequese — textos formativos, escritos para ensinar e converter, que combinavam fé e instrução com uma linguagem acessível aos povos nativos.
A literatura informativa — correspondências ativas e passivas com seus superiores na Companhia de Jesus, nas quais descrevia minuciosamente o “Novo Mundo”: a geografia, o clima, as chuvas, a fauna, a flora, as cores, os cheiros, os tipos físicos. Relatos que hoje são documentos históricos de valor incalculável sobre as origens do Brasil.
Por esse conjunto de registros — que unem rigor descritivo, sensibilidade poética e compromisso com a verdade — Anchieta recebeu o justo título de fundador da literatura brasileira.
O Valor de Seus Escritos
O padre jesuíta Hélio Abranches Viotti S.J. (1906–2000), na obra Cartas: Correspondência Ativa e Passiva, traça um retrato preciso das capacidades de Anchieta como escritor:
“Dotado de notável capacidade de observação e de privilegiada memória, acrescidas de sensibilidade artística para o aspecto poético das coisas, mas forrado ao mesmo tempo de vastíssima humildade, jamais se aparta Anchieta da objetividade e exatidão, ao expor por escrito suas impressões sobre as pessoas e os fatos que descreve.”
Essa combinação é rara: observação precisa + sensibilidade poética + humildade. Anchieta não escrevia para ser celebrado — escrevia para registrar, ensinar e servir. E é exatamente por isso que sua obra atravessou mais de quatro séculos e continua sendo estudada, admirada e reverenciada.
Um Legado que Inspira
Neste Dia Nacional do Escritor, o Santuário Nacional de São José de Anchieta celebra não apenas o patrono de nossa casa, mas o exemplo de que a escrita, quando feita com verdade e propósito, transcende o tempo.
Anchieta desbravou e semeou a palavra de Cristo nas terras do Espírito Santo e do Brasil. Mas também semeou as bases de uma literatura que nos ajuda a compreender quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
Que sua trajetória inspire escritores, leitores e todos aqueles que acreditam no poder transformador da palavra escrita.