1. Introdução e Contexto Histórico
No dia 17 de julho, a Igreja no Brasil celebra o Dia de Proteção às Florestas, data instituída em 1965 para conscientizar sobre a preservação ambiental e a conservação da biodiversidade. A data é também uma homenagem ao Curupira, figura do folclore indígena nacional conhecida como o guardião das matas e dos animais. O que poucos sabem é que a primeira vez que o Curupira apareceu num documento escrito foi em 1560, na Carta de São Vicente, redigida por um jesuíta que séculos depois seria canonizado: São José de Anchieta, o apóstolo do Brasil.
Anchieta escreveu, com olhar de missionário e etnógrafo, a figura que os indígenas chamavam de Corupira: um “demônio das montanhas” que protegia a floresta e punia quem a destruía. O trecho original da Carta de São Vicente diz:
“É conhecido e anda na boca de todos, haver uns demônios que os brasis chamam CORUPIRA, que muitas vezes no mato acometem os índios, e os ferem com açoites, atormentam e matam. Disto são testemunhas os nossos irmãos que viram algumas vezes os mortos por elas. Por isso, os índios, num caminho, que por matos ásperos e montes íngremes vai para o sertão, ao passar no cimo do monte mais alto, costumam deixar penas de aves, abanos, flechas e outros objetos semelhantes, rogando-lhes muito que não lhes faça mal.”
2. A Sabedoria dos Povos e a Criação
Anchieta não endossou a crença como verdade religiosa, mas registrou com respeito a sabedoria dos povos originários. No mesmo documento, descreveu a fauna, a flora, os rios, a geografia e o clima da Mata Atlântica — um testemunho precioso da Criação que ainda hoje nos interpela.
O Brasil possui diferentes tipos de cobertura vegetal, definidos pelo clima, solo e relevo. Nossas principais matas e biomas nacionais — Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Mata dos Corais, Mata de Araucárias, Manguezais — cobrem mais de 60% do território nacional e abrigam um terço das florestas tropicais do planeta. Todos são essenciais ao equilíbrio climático do mundo, oferecendo recursos hídricos, segurança alimentar e a conservação daquilo que o Papa Francisco chama de “Casa Comum”.
3. Ecologia Integral e Identidade
A conexão entre São José de Anchieta e o Curupira revela um ponto de encontro entre a cosmovisão indígena e a tradição cristã: a ideia de que a natureza tem um guardião, que o desrespeito à criação tem consequências e que o cuidado com a Casa Comum é um dever que antecede qualquer bandeira política. O Papa Francisco, na encíclica Laudato Si’, chamou a atenção exatamente para isso: a crise ambiental é uma crise de percepção. Tratamos o planeta como depósito e não como lar. O Curupira, na sabedoria ancestral, já denunciava isso séculos antes de a ecologia virar ciência.
Cuidar das florestas brasileiras é cuidar de água, de ar, de clima, de comida. É também cuidar de uma história que mistura fé, cultura popular e identidade nacional. O Curupira de Anchieta não é só lenda: é um lembrete de que a proteção da natureza está enraizada no que somos como povo.
4. Conclusão e Prece
Cuidemos de nossa “Casa Comum”. Cuidemos da nossa história e do nosso folclore. Que possamos olhar para nossas matas não como fonte de lucro imediato, mas como herança sagrada a ser transmitida às futuras gerações.
São José de Anchieta, Apóstolo do Brasil, rogai por nós para que saibamos cuidar da Criação com a sabedoria de quem sabe que tudo vem de Deus.